Reflexões

XVI DIA MUNDIAL DO DOENTE 2012

 Foi publicada no dia03, aMensagem do papa Bento XVI para o Dia Mundial do Enfermo 2012, dia 11 de fevereiro próximo, data em que a Igreja celebra em seu calendário litúrgico Nossa Senhora de Lourdes. O documento tem como tema “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou!”, extraído do Evangelho segundo São Lucas (17, 19).

“Levante-te e vai. A tua fé te salvou!” (Lc 17,19)

Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial do Enfermo

(11 de fevereiro de 2011)

Queridos irmãos e irmãs,

Por ocasião do Dia Mundial do enfermo, que celebraremos no próximo dia 11 de fevereiro de 2012, memória da beata Virgem de Lourdes, desejo renovar a minha proximidade espiritual a todos os enfermos que se encontram nos locais de reabilitação e são acolhidos nas famílias, exprimindo a cada um a solicitude e afeto de toda a Igreja. Na colhida generosa e amorosa de toda vida humana, sobretudo daquela fraca e e doente, o cristão exprime um aspecto importante do próprio testemunho evangélico, sob o exemplo de Cristo, que inclinou-se sobre os sofrimentos materiais e espirituais do homem para curá-lo.

 Neste ano, que constitui a preparação mais próxima do solene Dia Mundial do enfermo que se celebrará na Alemanha no dia 11 de fevereiro de 2013 e que se deterá sobre a emblemática figura evangélica do samaritano (Lc 10, 29-37), gostaria de destacar os Sacramentos da Cura, isto é, o sacramentos da penitência e da reconciliação e da unção dos enfermos, que possuem seus naturais cumprimentos na comunhão eucarística.

 O encontro de Jesus com os dez leprosos, narrado no Evangelho de São Lucas (Lc 17, 11-19), em particular as palavras que o Senhor dirige a um deles: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou!” (v.19), ajudam a tomar consciência da importância da fé daqueles que, agravados pelo sofrimento e pela doença, se aproximam do Senhor. No encontro com Ele podem experimentar realmente que quem crê não está nunca sozinho. Deus, de fato, no seu Filho, não nos abandona em nossas angústias e sofrimentos, mas nos é próximo, nos ajuda a leva-los e deseja curar no profundo o nosso coração (Mc 2, 1-12).

 A fé daqule único leproso que, vendo-se curado, cheio de admiração e alegria, diferente dos outros, retorna imediatamente a Jesus para manifestar o próprio reconhecimento, demonstra que a saúde reconquistada é sinal de algo mais precioso que a simples cura física, é sinal da salvação que Deus nos doa através de Cristo; a mesma encontra expressão nas palavras de Jesus: a tua fé te salvou. Quem, no próprio sofrimento e doença invoca o Senhor é certo que o Seu Amor não nos abandona nunca, e que também o amor da Igreja, prolongamento no tempo da sua obra salvífica, não deixa de ser manifestado. A cura física, expressão da salvação mais profunda, revela assim a importância que o homem na sua integralidade de alma e corpo representa para o Senhor. Todo Sacramento exprime e atua a proximidade de Deus, o qual, em modo absolutamente gratuito nos toca por meio das realidades materiais, que Ele assume ao seu serviço, fazendo disso instrumentos do encontro entre nós e Ele mesmo (Homilia Santa Missa do Crisma, 1 de abril de 2010). “A unidade entre criação e redenção se tornam visíveis. Os Sacramentos são expressão da corporeidade da nossa fé que abraça corpo e alma, o homem inteiro” (Homilia Santa Missa do Crisma, 21 de abril de 2011)

 A missão principal da Igreja é certamente o anúncio do Reino de Deus, ‘mas exatamente esse anúncio deve ser um processo de cura’, enfaixar as chagas dos corações partidos (Is61,1), segundo o encargo confiado por Jesus aos seus discípulos. (Luc 9, 1-2; Mt 10,1.5-14; Mc 6, 7-13. O binômio entre saúde física e renovação das dilacerações da alma nos ajuda, portanto, a compreender melhor os Sacramentos da cura.

 O  Sacramento da Penitência já esteve por diversas vezes no centro das reflexões dos Pastores da Igreja, exatamente por causa da grande importância no caminho da vida cristã, a partir do momento que todo o valor da Penitencia consiste no restituir-nos à graça de Deus unindo-nos a Ele em íntima e grande amizade (Catecismo da Igreja Católica, 1468). A Igreja, continuando o anúncio do perdão e da reconciliação ressoado por Jesus, não cessa de convidar a humanidade inteira a converter-se e a crer no Evangelho. Esse é o apelo do apóstolo Paulo: “Em nome de Cristo, sejamos embaixadores: através de nós é o próprio Deus que exorta. Vos suplicamos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus (2Cor 5,20). Jesus, na sua vida, anuncia e torna presente a misericórdia do Pai. Ele veio não para condenar, mas para perdoar e salvar, para dar esperança também na escuridão mais profunda do sofrimento e do pecado, para doar a vida eterna; assim no Sacramento da Penitência, no remédio da confissão, a experiência do pecado não degenera em desespero, mas encontra o Amor que perdoa e transforma (João Paulo II, na Exortação Apost. Pós Sinodal reconciliação e Penitência, 31)

 Deus, rico em misericórdia (Ef 2,4), como o pai na parábola evangélica (Lc 15, 11-32), não fecha o coração a nenhum dos seus filhos, mas os espera, os procura, os atinge onde a rejeição da comunhão aprisiona no isolamento e no desespero, pode transformar-se assim em tempo de graça para entrar em si mesmos, e como o filho prodigo da parábola, repensar na própria vida, reconhecendo os erros e faltas, sentir a saudade do abraço do Pai e repercorrer o caminho em direção à sua Casa. Ele, no seu grande amor, sempre olha nossa existência e nos espera para oferecer a cada filho que volta para Ele, o dom da plena reconciliação e da alegria.

 Pela leitura dos Evangelhos, emerge clamaramente como Jesus tenha mostrado particular atenção aos enfermos. Ele não somente inviou os discípulos a curar-lhes as feridas (Mt 10, 8; Luc 9,2; 10,9), mas também instituiu para eles um sacramento específico: a Unção dos Enfermos. A carta a Tiago, atesta a presença desse gesto sacramental já na primeira comunidade cristã (5, 14-16): com a Unção dos enfermos, acompanhada pela oração dos presbíteros, toda a Igreja recomenda os enfermos ao Senhor sofredor e glorificado, a fim que alivie suas penas e os salve, e ainda os exorta a unirem-se espiritualmente à paixão e à morte de Cristo, para contribuir ao bem do Povo de Deus.

 Tal Sacramento nos leva a contemplar o dúplice mistério do Monte das Oliveiras, onde Jesus se encontrou dramaticamente diante da via indicada pelo Pai, aquela da Paixão, do supremo ato de Amor, e a acolheu. Naquela hora de prova, Ele é o mediador, transportando em si, assumindo em si o sofrimento e a paixão do mundo, transformando-a em grito em direção a Deus, levando-a diante dos olhos e nas mãos de Deus, e assim, levando-a realmente ao momento da redenção (Lectio Divina, Encontro com o Clero de Roma, 18 de fevereiro de 2010). Mas o orto das oliveiras é também o lugar do qual Ele elevou-se ao Pai, e é também o lugar da redenção. Este dúplice Mistério do Monte das Oliveiras é também sempre ativo no óleo sacramental da Igreja, sinal da bondade de Deus que nos toca (Homilia, Santa Missa do Crisma, 1 de abril de 2010). Na unção dos enfermos, a matéria sacramental do óleo nos vem oferecida, por assim dizer, como remédio de Deus, que agora nos torna certos da sua bondade, nos deve reforçar e consolar, mas que, ao mesmo tempo, além do momento da doença, nos traz a cura definitiva, a ressurreição (Tiag 5, 14)

 Esse Sacramento merece hoje uma maior consideração, seja na reflexão teológica, seja na ação pastoral junto aos doentes. Valorizando os conteúdos da oração litúrgica que se adaptam às diversas situações humanas ligadas à doença e não somente quando se está no fim da vida (Catecismo da Igreja Católica, 1514), a unção dos enfermos não deve ser tida como um ‘sacramento menor’ em relação aos outros. A atenção e o cuidado pastoral em relação aos enfermos, se de um lado é sinal da ternura de Deus para quem está no sofrimento, por outro lado traz vantagem espiritual também aos sacerdotes e à toda a comunidade cristã, na consciência que quando algo é feito ao mais pequeno, é feito ao próprio Jesus (Mat 25,40).

 A propósito dos Sacramentos da Cura, Santo Agostinho afirma: “Deus cura todas as suas enfermidades. Não temais portanto: todas as suas enfermidades serão curadas. Tu deves somente permitir que Ele te cure e não deves rejeitar as suas mãos” (Exposição sobre o Salmo 102). Se trata de meios preciosos da Graça de Deus, que ajudam o enfermo a conformar-se sempre mais plenamente com o Mistério da Morte e Ressurreição de Cristo. Junto a esses dois sacramentos, gostaria de sublinhar a importância da Eucaristia. Recebida no momento da doença, contribui em maneira singular, a operar tal transformação, associando quem se nutre do Corpo e do Sangue de Jesus à oferta que Ele fez de Si mesmo ao Pai para a salvação de todos. Toda a comunidade eclesial e as comunidades paroquiais em particular, prestem atenção em assegurar a proximidade com frequência da comunhão sacramental a aqueles que, por motivos de saúde e de idade, não podem chegar aos locais de culto. Em tal modo, a estes irmãos e irmãs será oferecida a possibilidade de reforçar o relacionamento com Cristo crucificado e ressuscitado, participando, com a vida oferecida por amor de Cristo, à própria missão da Igreja. Nesta prospectiva, é importante que os sacerdotes que prestam suas delicadas obras nos hospitais, nas casas de reabilitação e junto às habitações do doentes, se sintam verdadeiros ministros dos enfermos, sinal e instrumento da compaixão de Cristo, que deve chegar a cada homem marcado pelo sofrimento (Mensagem para a XVIII Dia Mundial dos Doentes, 22 de novembro de 2009).

 A conformação ao Mistério pascal de Cristo realizada também mediante a prática da Comunhão espiritual, assume um significado particular quando a Eucaristia é ministrada e acolhida como viático. Naquele momento da existência ressoam em modo ainda mais incisivo as palavras do Senhor: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6,54). A Eucaristia, de fato, sobretudo como viático é, segundo a definição de Santo Inácio de Antioquia, remédio de imortalidade, antídoto contra a morte, sacramento da passagem da morte para a vida, deste mundo ao Pai, que a todos espera na Jerusalém celeste.

 O tema desta mensagem para a 20ª Dia Mundial do enfermo, “Levanta-te e vai, a tua fé te salvou”, olha também para o próximo ‘Ano da fé” que iniciará em 11 de outubro de 2012, ocasião propícia e preciosa para redescobrir a força e a beleza da fé, para aprofundar os conteúdos e para testemunhá-la na vida de cada dia. (Carta Apostólica Porta da fé, 11 de outubro de 2011). Desejo encorajar os doentes e sofredores a encontrar sempre uma âncora segura na fé, alimentada pela escuta da Palavra de Deus, pela oração pessoal e pelos Sacramentos, enquanto convido os Pastores a serem sempre mais disponíveis para as celebrações aos enfermos. Sob o exemplo do Bom pastor e como guias do rebanho confiado a Eles, os sacerdotes sejam cheios de alegria, atenciosos com os mais fracos, os simples, os pecadores, manifestando a infinita misericórdia de Deus com as palavras seguras da esperança (Santo Agostinho, carta 95)

 A todos os que trabalham no mundo da saúde, como também as famílias que nos próprios parentes veêm o rosto sofrido do Senhor Jesus, renovo o meu agradecimento e da Igreja, porque, na competência profissional e no silencio, mesmo sem proferir o nome de Cristo, o manifestam concretamente (Homilia, Santa Missa do Crisma, 21 de abril de 2011)

 A Maria, Mãe da Misericórdia e saúde dos enfermos, elevamos o nosso olhar confiante e a nossa oração, à sua materna compaixão, vivida ao lado do Filho que morria na cruz, acompanhe e sustente a fé e a esperança de cada pessoa doente e sofrida no caminho da cura das feridas do corpo de do Espirito.

 A todos asseguro a minha recordação na oração, enquanto dirijo a cada um uma especial benção apostólica

————————————————————————————————

REFLEXÃO

O Papa Bento XVI, em audiência de 7 de Outubro, ao falar ao Congresso Mundial da Imprensa Católica, deste tempo de progresso imparável, onde o risco da indiferença pela verdade é real, disse-lhes que o verdadeiro e o falso não são intercambiáveis, nem podem induzir ou levar à confusão do real com o virtual.
                                                                                                                            Por Pe. Estevinho Pires

——————————————————————————————————–

Respeitar o silêncio é promover o bem-estar…

 Propiciar actitudes que promovam o silêncio ajuda a restablecer em nós a dimenssão humano divina. A calma, a serenidade interior, a reflexão, o juízo recto, a paz são frutos do silêncio. Se do silêncio recebemos imunidade, na luta contra o stresse e a ansiedade por ele acolhemos, acompanhamos e servimos melhor os outros e com eles podemos assistir ao florescer de Deus nas nossas vidas, aumentando as nossas reservas de esperança e confiança.

O silêncio não aumenta apenas o nosso bem-estar pessoal, permite-nos ouvir melhor os outros, partilhar as suas inquietações, ajudando também eu sou ajudado, recebendo a novidade do outro. Quando oiço os outros estes deixam de me ser indiferentes, não são mais para mim um inferno, mas um meio, para que pelo meu serviço possa alcançar a benção e contribuir para o aumento da minha felicidade.

 O silêncio que elimina o ruído exterior luta pela saúde, promovendo o bem-estar.

 O silêncio de quem escuta, ajuda a ser mais útil, melhor e mais eficaz.

 O silêncio de quem ora e adora, preenche melhor a vida interior, com fé e confiança em Deus, ajudando a aceitar sem reservas a sua vontade.

Pe. Estevinho Pires

27/1072010

———————————————————————————————————

A Bíblia e o Telefone

 13 do 10 do 10. Três números a somar 33, um número mágico já registado pelos 33 mineiros do Chile. Uma data do calendário que vai ficar para a história: 13 de Outubro de 2010.

Depois de 69 dias mais noites do que dias nas profundezas da terra, a mais de 600 metros de profundidade, na mina de San José, no norte do Chile, a humanidade pôde celebrar a vitória da fé e da tecnologia: os 33 mineiros renasceram do ventre da Mãe terra. Sãos e salvos. Emocionados e a contagiar-nos a todos com a sua saga.

Cada um destes 33 homens é uma imagem a reter para a posteridade. Mais uma vez, os mídia puseram-nos o coração a bater a uníssono com o coração de cada um deles. E com os cerca de 17 milhões de chilenos. E com os mais de seis mil milhões de seres humanos que habitam a terra. E com o coração de Deus.

Há marcos inesquecíveis nesta aventura com os mineiros, uma das profissões de maior risco. Destaco a saída do primeiro mineiro. Tocou a sorte (e o risco) a Florêncio Ávalos, que saiu da cápsula Fénix 2, após 16 longos minutos de trajecto. Emocionante foi o abraço a sua esposa Mónica e ao pequeno Byron, seu filho de 8 anos. No Chile, os relógios marcavam a meia-noite e quinze minutos do dia 13 de Outubro de 2010 (mais quatro horas em Portugal).

Outro marco a fixar, a saída do último mineiro, o 33º, Luís Urzúa, o líder do grupo. Eram as 21h55 do mesmo dia 13 de Outubro.

Neste apontamento quero deixar registada a saída de dois outros mineiros: Cada um deles, triunfante, empunhava um símbolo diferente e complementar: Omar Reygadas, o mineiro 17º, surgia com a Bíblia na mão; e  Ariel Ticona, o mineiro 32º, apresentava-nos o telefone.

Estas duas imagens fizeram-me recuar a 4 de Dezembro de 1963. Ao fim da primeira sessão, os Padres do Concílio Vaticano II aprovavam dois emblemáticos documentos: um sobre a Liturgia, o diálogo, a comunicação com Deus, onde é decretado que se abram mais amplamente ao povo os tesouros da Palavra de Deus. Um segundo documento sobre as relações com as pessoas, as comunicações sociais, apresentadas entre as maravilhas do nosso tempo.

47 anos depois, as mesmas vertentes, com idêntica carga simbólica, como expressão de vida e de luta: a Bíblia e o telefone. A comunhão com Deus, a comuncação com os outros.

Partiu dos Cristãos da Igreja Adventista do Sétimo Dia do Chile a iniciativa de fazer chegar a cada mineiro um exemplar da Bíblia em miniatura. Junto a cada uma das Bíblias em miniatura, foi enviada uma lupa para facilitar a leitura. Foi destacado o Salmo 40:

  «Invoquei o Senhor com toda a confiança;

Ele inclinou-se para mim e ouviu o meu clamor.

 Tirou-me dum poço fatal, dum charco de lodo;

assentou os meus pés sobre a rocha

e deu firmeza aos meus passos.

Ele pôs nos meus lábios um cântico novo,

um hino de louvor ao nosso Deus» (Sl 40,2-4)

A Bíblia chegou às mãos dos mineiros no dia 26 de Agosto. Em sintonia com eles, também os seus familiares e amigos liam e meditavam a Palavra de Deus no deserto chileno de Atacama, como esperança de um povo que luta, certeza da presença do Deus Libertador, o Deus do Êxodo e da Ressurreição.

A operação de resgate de Omar Reygadas, de 56 anos, terminou por volta das 13h40. Ele apresentou-se tranquilo e, com a sua Bíblia na mão, ajoelhou-se para agradecer a Deus o «milagre» da sua salvação. «A chegada da Bíblia deu-me tanta fé que eu sei que vou sair daqui» confessara Renán Ávalos, o 25º mineiro a ser resgatado.

Mas há mais. Também umas t-shirts com mensagens religiosas e bíblicas tinham chegado ao interior da mina de San José. Assim, Alex Vega, o 10º mineiro a ser resgatado, ao sair da mina, apareceu com a Bíblia na mão e mostrando com orgulho a t-shirt que enverga por cima do traje verde de salvamento. Podemos ler: «Gracias, Señor!». As letras são garrafais. Obrigado, Senhor! Na parte superior há um versículo do Salmo 95:

«Na sua mão estão as profundezas da terra

e pertencem-lhe os cimos das montanhas.» (Sl 95,4)

Por coincidência, na celebração deste Domingo, Paulo escreve ao seu discípulo Timóteo, inculcando-lhe o amor à Palavra de Deus, como caminho de sabedoria e de salvação:

«Desde a infância conheces as Sagradas Escrituras; elas podem dar-te a sabedoria que leva à salvação, pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura, inspirada por Deus, é útil para ensinar, persuadir, corrigir e formar segundo a justiça.» (2 Tm 3, 15-16)

Entretanto, a 2 de Setembro, o Papa Bento XVI tinha enviado a cada mineiro um Terço benzido por ele.

Além da Bíblia, que proporcionou a estes mineiros soterrados o diálogo pessoal com Deus, há um segundo símbolo muito significativo: o telefone.. Foi Ariel Ticona, o penúltimo mineiro a ser resgatado das profundezas da terra, quem se apresentou, triunfante, de telefone na mão. Eram 21h30. Foi aquele o primeiro telefone a ser utilizado pelos mineiros para comunicarem com os técnicos e familiares durante os 69 dias que permaneceram nas entranhas da terra. Ariel era o encarregado das comunicações. Aquele telefone foi o seu instrumento de salvação. «O inferno são os outros» – sentenciou Sartre. Corrigimos: O inferno é a ausência dos outros. E do Outro.

A saga dos mineiros chilenos constitui, entre outras coisas, um hino à fé e à técnica, uma e outra ao serviço da pessoa.

«Gracias, Señor!»

Obrigado, Senhor!

Obrigado, mineiros do Chile!

Santos SP / Brasil, 17 de Outubro de 2010

Frei Acílio Mendes

21/10/2010

———————————————————————————————————

TÉCNICOS VIRTUOSOS

Ser Director Técnico (DT) de uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSs) é algo sério, ético e benéfico, dinâmico, o que implica também crescimento pessoal.

Em tempos de corrupção e de crise, exige-se do DT um esforço adicional para exercer a sua função com ética pessoal, isenta, profissional e séria, pois partilha a confiança das estruturas dirigentes e assim muito poderá ajudar a mudar as IPSs.

Os Técnicos não são meros executores de tarefas!

Os DT, em geral, não são apenas meros “executores” de ordens e indicações, mas colaboradores que fazem parte de um grupo seleccionado da equipe de direcção.

Por serem pessoas de confiança, pessoal e corporativa, fomentam a pró actividade e gozam cada vez mais de uma maior autonomia.

Para que não actuem segundo caprichos arbitrários é essencial que os DT disponham de uma boa bagagem de virtudes e valores éticos.
Porque se dá tanta importância ao DT, em momentos de crise?

Diante da actual crise económica mundial, ocasionada devido às más decisões financeiras e económicas, volta-se a manifestar a prioridade de obter uma formação e reciclagem ética em todas as áreas e de maneira particular em todos os âmbitos institucionais.

Será preciso trabalhar de forma justa e solidária, pensando no bem da IPSs e no bem comum e não visando o benefício pessoal ou para amigos mais próximos.

Quem possui firmeza ética pensa e trabalha sempre pensando no colectivo (no bem comum, na dignidade da pessoa humana, nos objectivos justos da IPSs), actuando no âmbito local: trabalhando bem, guardando o segredo profissional, favorecendo a boa comunicação, com veracidade, lealdade e companheirismo.

O que é a “excelência pessoal” e como se alcança?

A indicação ética específica para DT resumir-se-ia assim: “cresça em valor e virtude e alcançará a excelência humana”.

Um grupo de mulheres e homens que trabalhem “virtuosamente” gera uma concentração de sinergias que acabam por configurar as IPSs até convertê-las em excelentes.

A imagem corporativa da empresa é a soma da qualidade pessoal de seus trabalhadores. “Uma empresa vale o que valem seus homens”.

A “excelência pessoal” assenta sobre três pilares: competência profissional, nível cultural e categoria humana; estes três pilares da excelência sustentam as virtudes e os valores.

Não pode haver confusão entre o bem útil e bem moral. Trabalhar bem exige fazer o bem, pois o bem merece ser bem realizado.

A filosofia clássica pedia para fazer o bem e realizá-lo com beleza. Chegava a considerar a ética como a arte de viver. O trabalho é uma das dimensões constitutivas do homem, e semelhante à inteligência, vontade, o ser livre, a capacidade de estabelecer comunhão com os demais.

O que diferencia um DT de um Director ou Presidente de IPSs, no “crescer como pessoa”?

Independentemente da categoria, a capacidade de trabalho, a discrição, a lealdade e as demais virtudes e valores humanos, são o tronco comum, de quem é colaborador ou de quem colabora.

A disciplina, a docilidade, a flexibilidade e outras qualidades humanas, sem servilismo, aliadas à tomada de muitas iniciativas dão criatividade às actividades, objectivos e trabalhos, concretizam-se em pessoas que “obedecem”.

As virtudes e os valores humanos exigidos aos DT, coincidem com os dos Directores e Presidentes, mas o modo concreto como esses valores são realizados apresentam características próprias e diferentes das de quem dispõe da definitiva capacidade de decisão: um DT, não possui as competências de um Conselho de Administração ou dos Directores de uma IPSs.

– Qual o significado da ética institucional frente à interculturalidade actual?

– A mobilidade geográfica, a globalização e os distintos estilos de trabalhar com pessoas de diferentes civilizações definem o mundo institucional no qual vivemos.

A dimensão ética terá em conta o mundo dos valores pessoais, sociais e culturais, olhando-os como algo positivo, isto é, valorizando-os.

Uma tradição religiosa ou civilizacional que não respeite os direitos humanos, a lei natural, para falarmos com mais exactidão, não poderá impor os seus contravalores como “riquezas” em prol da diversidade.

Um contravalor, na sua génese, carece absolutamente de voz ou direito para ser imposto no conjunto da multiculturalidade, não pode ter pretensões de integração numa almejada interculturalidade.

Num Estado de Direito, a verdadeira integração não concebe práticas de eliminação do outro, ou diminuição da sua dignidade, tudo que se afaste destes parâmetros não passa de parasitismo a transpirar impunidade, para eliminar ou diminuir o outro, indefeso.

O Papa Bento XVI, na Encíclica, “Caritas in veritate”, aponta as ideias e linhas de força que podem servir a qualquer profissional de boa vontade, seja cristão ou não, a expor suas atitudes éticas seja no mundo empresarial ou organizacional. As linhas de força que apoiam a justiça e o amor, como fontes naturais de qualquer projecto, a perspectiva constante do bem comum e a inovação, inspiradas numa gratuidade solidária, acabarão por transformar o mundo empresarial e organizacional.

06/10/2010

———————————————————————————————————

Sem misericórdia “desmorona-se a coesão de uma cidade e de uma sociedade”. Sem a “superação do espírito de individualismo e de egoísmo, em que cada um pensa somente em seu benefício, não podemos construir um futuro novo”.    (WALTER KASPER, Perdonanza, in Zénit.org 30/08/2010)

06/10/2010

———————————————————————————————————

Respeito pela vida em todas as idades

È necessário respeitar a vida humana “independentemente da idade ou das circunstâncias”.

“A vida é um dom único, em cada fase, desde a concepção à morte natural, que só Deus pode dar e tirar”.

Numa sociedade em que se verifica uma longevidade crescente, “é importante reconhecer a presença de um número cada vez maior de idosos como uma bênção”.

“Deus deseja um respeito adequado pela dignidade e valor, a saúde e o bem-estar dos idosos”.

É de considerar o exemplo de João Paulo II, que “sofreu muito publicamente nos seus últimos anos de vida”.

“Estes tempos podem estar entre os anos mais frutuosos, espiritualmente, das nossas vidas”.[1]

[1] BENTO XVI, Respeitar a vida humana, Londres 18/09/2010 in Ecclesia.pt

0 6/10/2010

———————————————————————————————————

Quem é o filósofo?

 “Examinemos de que causas e de que princípios se ocupa a filosofia como ciência. Esta questão aclarar-se-á muito melhor se se examinarem as diversas ideias que temos do filósofo. Na primeira instância concebemos o filósofo como o conhecedor do conjunto das coisas, em tudo quanto é possível, mas sem ter a ciência de cada uma delas em particular. Em seguida, o que pode chegar ao conhecimento das coisas difíceis, aquelas a que não se chega senão sem vencer dificuldades. A esse não lhe chamaremos filósofo? Com efeito, conhecer pelos sentidos é uma faculdade comum a todos, um conhecimento que não se adquir sem esforços não tem nada de filosófico. Por último, o que têm as noções mais rigorosas das causas, o que melhor ensina estas noções é mais filósofo que todos os outros em todas as ciências…” (Aristóteles)

06/10/2010

———————————————————————————————————

“É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade.

Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber.
O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém.
Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a  outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende  que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.”

Adrian Rogers, 1931

06/10/2010

———————————————————————————————————

NÃO HÁ PECADO!

Muitos cristãos dizem, em jeito de desculpabilização infantil, de quem não se quer deixar confrontar com realismo pela Palavra de Deus, que não há pecado! Outros dizem: não mato, não roubo, não tenho pecados! Estas atitudes são efectivamente preocupantes, pelo que revelam de “preguiça espiritual” e pelo que soam a demissão de ser autêntico missionário de Cristo!

A perda do sentido do pecado revela-se como uma das características preocupantes do nosso tempo. Associado a este facto surge simultaneamente a noção de perda, por parte da humanidade, de que Cristo a libertou. Por outro lado, nós os cristãos, esquecemo-nos que o baptismo, nos restituiu a inocência do coração.

Na Cruz, Cristo sente o peso de todos os pecados do mundo, mas deve ter sentido, de forma mais dolorosa, os pecados dos seus discípulos, desde a negação de Pedro, ao pecado dos cristãos que não foram fiéis à pureza baptismal.

06/10/2010

———————————————————————————————————

“É impossível levar o pobre à prosperidade através de legislações que punem os ricos pela prosperidade.

Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa deve trabalhar sem receber.
O governo não pode dar para alguém aquilo que não tira de outro alguém.
Quando metade da população entende a idéia de que não precisa trabalhar, pois a  outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende  que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação.

É impossível multiplicar riqueza dividindo-a.”

Adrian Rogers, 1931

06/10/2010

———————————————————————————————————

“Cruz dos Jovens” vai a Portugal para preparar JMJ

De 8 a 20 de agosto, nas dioceses portuguesas

LISBOA, terça-feira, 3 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – A “Cruz dos Jovens”, que peregrina pelo mundo em preparação à Jornada Mundial da Juventude (Madri 2011) chega a Portugal no dia 8 de agosto e permanece no país até o dia 20 deste mês.

Trata-se de uma cruz de madeira, com quase 4 metros de altura, que João Paulo II entregou aos jovens de todo o mundo, no final do Ano Santo da Redenção (1983-1984); segundo recorda Agência Ecclesia.

É conhecida como a “Cruz do Ano Santo”, a “Cruz do Jubileu”, a “Cruz da Jornada Mundial da Juventude”, a “Cruz Peregrina”. Muitos a chamam de “Cruz dos Jovens”, visto ter sido entregue aos jovens com a missão de ser levada pelo mundo.

Entre os dias 8 e 20 de outubro de 2003, a Cruz esteve em Portugal para preparar a JMJ de Colônia (Alemanha). Durante todo o ano de 2004, ela peregrinou pela Europa.

Em 2005, a Cruz esteve na JMJ de Colônia e, a partir daí, iniciou a peregrinação durante os anos 2006 e 2007, até em 2008 estar em Sidney (Austrália), para a XXIII Jornada Mundial da Juventude.

No Domingo de Ramos de 2009, Bento XVI entregou-a aos jovens espanhóis, tendo início sua peregrinação pelas dioceses espanholas.

No dia 8 de agosto, jovens representantes de todas as dioceses de Portugal irão à Missa de encerramento da Peregrinação Europeia de Jovens, em Santiago de Compostela, onde receberão a Cruz das mãos dos jovens espanhóis.

Em Portugal, a Cruz peregrina por Viana/Braga (dia 8), Vila Real/Bragança (9), Lamego/Porto (10), Aveiro (11), Viseu/Guarda (12), Algarve (13), Leiria-Fátima (14), Leiria-Fátima/Santarém (15), Coimbra/Portalegre (16), Lisboa/Setúbal (17), Açores (18), Açores (19), Beja/Évora (20). Em seguida, parte para o Santuário de Lourdes (França), via Madri.

Fonte: Zenit – http://www.zenit.org/article-25694?l=portuguese

———————————————————————————————————

CARTA DO PAPA JOÃO PAULO II

AOS ANCIÃOS

1999

Aos meus irmãos e irmãs anciãos!

« A soma da nossa vida é de setenta anos,

os mais fortes chegam aos oitenta;

mas a maior parte deles

é fadiga e dor,

passam depressa e nós desaparecemos »

(Sal 90 [89], 10)

1. Setenta anos eram muitos no tempo em que o Salmista escrevia estas palavras, e muitos não os superavam; hoje, graças aos progressos da medicina e melhores condições sociais e económicas, em muitas regiões do mundo a vida ampliou-se notavelmente. Porém, é sempre verdade que os anos passam rapidamente; o dom da vida, apesar da fadiga e dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que dele nos cansemos.

Sendo também eu ancião, senti o desejo de estabelecer um diálogo convosco. Faço-o, antes de mais, dando graças a Deus pelos abundantes dons e oportunidades que Ele me concedeu até hoje. Percorro novamente com a memória as etapas da minha existência, que se entrelaçam com a história de grande parte deste século, e vejo aparecer a figura de numerosas pessoas, algumas delas particularmente queridas: são lembranças de eventos ordinários e extraordinários, de momentos felizes e de factos marcados pelo sofrimento. Acima de tudo, no entanto, vejo estender-se a mão providente e misericordiosa de Deus Pai, o qual «trata do melhor modo tudo o que existe», (1) e «se algo Lhe pedimos, segundo a Sua vontade, Ele ouve-nos» (1 Jo 5, 14). A Ele, digo com o Salmista: «Desde a minha juventude, Vós me instruístes, Senhor, até ao presente anuncio as Vossas maravilhas. Agora na velhice e na decrepitude, não me abandoneis, ó Deus; para que narre às gerações a força do Vosso braço, o Vosso poder a todos os que hão-de vir» (Sal 71 [70], 17-18).

Meu pensamento dirige-se com afecto a vós, caríssimos anciãos de qualquer língua e cultura. Escrevo-vos esta carta no ano que a Organização das Nações Unidas quis oportunamente dedicar aos anciãos, para chamar a atenção da sociedade inteira para a situação daquele que, pelo peso da idade, deve com frequência enfrentar problemas numerosos e difíceis.

Sobre este tema, o Pontifício Conselho para os Leigos já ofereceu preciosas linhas de reflexão. (2) Com esta carta, desejo somente exprimir a minha proximidade espiritual com o intuito de quem, ano após ano, sente crescer dentro de si uma compreensão sempre mais profunda desta fase da vida e nota consequentemente a necessidade de um contacto mais directo com os seus coetâneos para reflectir sobre coisas que são de comum experiência, tudo colocando sob o olhar de Deus que nos envolve com o seu amor, e com a sua providência nos sustenta e conduz.

2. Caríssimos irmãos e irmãs, voltar ao passado para tentar uma espécie de balanço, é espontâneo na nossa idade. Esta visão retrospectiva permite uma avaliação mais serena e objectiva de pessoas e situações encontradas ao longo do caminho. O passar do tempo suaviza os contornos dos acontecimentos, amenizando os contratempos dolorosos. Infelizmente cruzes e tribulações estão amplamente presentes na vida de cada um. Às vezes trata-se de problemas e sofrimentos, que põem a dura prova a resistência psicofísica e podem fazer estremecer a mesma fé. Mas a experiência ensina que até as próprias penas quotidianas, com a graça do Senhor, contribuem frequentemente para o amadurecimento das pessoas, abrandando-lhes o carácter.

Para além dos acontecimentos pessoais, a reflexão que mais se impõe é a que se refere ao tempo que passa inexoravelmente. «O tempo foge irremediavelmente», já sentenciava um antigo poeta latino. (3) O homem está imerso no tempo: nele nasce, vive e morre. Com o nascimento fixa-se uma data, a primeira da sua vida, e com a morte a outra, a última: o alfa e o ómega, o início e o fim da sua passagem pela terra, como a tradição cristã sublinha, esculpindo estas letras do alfabeto grego sobre as lápides dos túmulos.

Mas, se a existência de cada um de nós é tão limitada e frágil, conforta-nos o pensamento que, graças à alma espiritual, sobrevivemos à morte. Aliás, a fé oferece-nos uma «esperança que não confunde» (cf. Rom 5, 5), descerrando-nos a perspectiva da ressurreição final. Não é sem motivo que a Igreja, na solene Vigília Pascal, usa estas mesmas letras para se referir a Cristo vivo, ontem, hoje e sempre: «Princípio e fim, Alfa e Ómega. A Ele pertence o tempo e a eternidade». (4) A existência humana, apesar de sujeita ao tempo, é colocada por Cristo no horizonte da imortalidade. Ele «fez-Se homem entre os homens, para reunir o fim com o princípio, isto é, o homem com Deus». (5)

 

Um século complexo rumo a um futuro de esperança

3. Dirigindo-me aos anciãos, sei que estou a falar com pessoas e de pessoas que atravessaram um longo percurso (cf. Sab 4, 13). Falo aos meus coetâneos; posso, assim, procurar facilmente uma analogia na minha vida pessoal. A nossa vida, caros irmãos e irmãs, foi inscrita pela Providência neste século vinte, que recebeu uma complexa herança do passado e foi testemunha de eventos numerosos e extraordinários.

Como muitos outros tempos da história, ele registou luzes e sombras. Nem tudo foi escuridão. Muitos aspectos positivos compensaram o negativo ou dele surgiram como uma benéfica reacção da consciência colectiva. Mas também é verdade — e seria tão injusto como perigoso esquecê-lo — que houve sofrimentos indizíveis, que afectaram a vida de milhões e milhões de pessoas. Bastaria pensar nos conflitos deflagrados em diversos continentes devido a disputas territoriais entre Estados ou ao ódio inter-étnico. De não menor gravidade devem-se considerar a extrema pobreza de amplas faixas sociais no hemisfério sul do mundo, o fenómeno vergonhoso da discriminação racial e a sistemática violação dos direitos humanos em muitas nações. E que dizer então dos grandes conflitos mundiais?

Na primeira parte do século houve duas guerras, com uma quantidade nunca antes imaginada de mortos e de destruição. A primeira guerra mundial ceifou milhões de soldados e de civis, destroçando tantas vidas humanas no limiar da adolescência, e até mesmo da infância. E que dizer então da segunda guerra mundial? Ocorrida após poucos decénios de relativa paz mundial, especialmente na Europa, foi mais trágica do que a precedente, com consequências desastrosas para a vida das nações e dos continentes. Foi guerra total, inaudita mobilização de ódio, que caiu também brutalmente sobre populações civis inermes e destruiu inteiras gerações. O tributo pago, nas várias frentes, à loucura bélica foi incalculável, e igualmente terrível foi a matança consumada nos campos de extermínio, verdadeiros Gólgotas da época contemporânea.

Na segunda metade do século, viveu-se por vários anos, o pesadelo da guerra fria, isto é da confrontação entre os dois grandes blocos ideológicos opostos, Leste e Oeste, com uma desenfreada corrida aos armamentos e a constante ameaça de uma guerra atómica, capaz de levar a humanidade à extinção. (6) Graças a Deus, aquela página tenebrosa fechou-se na Europa com a queda dos regimes totalitários opressivos, como fruto de uma luta pacífica, que se serviu das armas da verdade e da justiça. (7) Começou, assim, um árduo mas profícuo processo de diálogo e de reconciliação, destinado a instaurar uma convivência mais serena e solidária entre os povos.

Muitas nações, porém, estão ainda bem longe de conhecer os benefícios da paz e da liberdade. Grande inquietação suscitou nos passados meses o violento conflito deflagrado na região dos Balcãs, já teatro nos anos precedentes de uma terrível guerra de carácter étnico: mais sangue foi derramado, outras destruições aconteceram, mais ódio foi alimentado. Agora, no momento em que o furor das armas se aplacou, começa-se a pensar na reconstrução, na perspectiva do novo milénio. Nesse meio tempo, continuam a rebentar também em outros continentes vários focos de guerra, por vezes com massacres e violências muito cedo esquecidos pelos jornais.

4. Se estas lembranças e dolorosas realidades actuais nos entristecem, não podemos esquecer que o nosso século viu levantar-se no horizonte bastantes sinais positivos, que constituem novas fontes de esperança para o terceiro milénio. Assim, cresceu — mesmo entre tantas contradições, especialmente quanto ao respeito pela vida de cada ser humano — a consciência dos direitos humanos universais, proclamados em solenes declarações que comprometem os povos.

Desenvolveu-se, igualmente, o sentido do direito dos povos à auto-determinação no âmbito de relações nacionais e internacionais inspiradas na valorização das identidades culturais e no respeito pelas minorias. A queda dos sistemas totalitários, como os do Leste europeu, fez crescer a percepção universal do valor da democracia e da liberdade de mercado, mesmo deixando aberto o enorme desafio de conjugar liberdade e justiça social.

Deve ser considerado, da mesma forma, um grande dom de Deus o facto de as religiões estarem a tentar, sempre com maior determinação, um diálogo que as torne elemento fundamental de paz e de unidade no mundo.

 Como não ressaltar também o crescimento, na consciência comum, do reconhecimento da dignidade da mulher? Sem dúvida, há ainda muito caminho a ser percorrido, mas a linha está traçada. Motivo de esperança é, também, a intensificação das comunicações que, favorecidas pela actual tecnologia, permitem superar as fronteiras tradicionais, fazendo-nos sentir cidadãos do mundo.

Outro campo importante de maturação é a nova sensibilidade ecológica que merece ser encorajada. Factores de esperança são ainda os grandes progressos da medicina e das ciências aplicadas ao bem-estar do homem.

Portanto, são muitos os motivos pelos quais devemos agradecer a Deus. Apesar de tudo, este final de século apresenta-se com grandes potencialidades de paz e de progresso. Memo das provas que afectaram a nossa geração, emerge uma luz capaz de iluminar os anos da nossa velhice. Fica então confirmado um princípio muito apreciado pela fé cristã: «As tribulações não só não destroem a esperança, mas são o seu fundamento». (8)

Então é sugestivo que, enquanto o século e o milénio se encaminham para o crepúsculo e já se entrevê a aurora de uma nova estação para a humanidade, nos detenhamos a meditar sobre a realidade do tempo que passa rápido, não para resignar-nos a um destino inexorável, mas para valorizar plenamente os anos que nos restam para viver.

 

O Outono da vida

5. O que é a velhice? As vezes fala-se dela como do Outono da vida — assim fazia Cícero (9) — seguindo a analogia sugerida pelas estações e pelo andamento das fases da natureza. Basta olhar, ao longo do ano, para a mudança da paisagem nas montanhas e nas planícies, nos prados, nos vales, nos bosques, nas árvores e nas plantas. Há uma estreita semelhança entre o biorritmo do homem e os ciclos da natureza, à qual ele pertence.

Porém, o homem, por sua vez, distingue-se de toda a realidade que o circunda, porque é pessoa. Plasmado à imagem e semelhança de Deus, ele é sujeito consciente e responsável. Mas, mesmo na sua dimensão espiritual, ele vive a sucessão das  distintas fases, todas igualmente passageiras. S. Efrém, o Sírio, amava comparar a vida com os dedos da mão, quer para pôr em evidência que a sua duração não vai mais além de um palmo, quer para indicar que, como os vários dedos, cada fase da vida tem a sua característica, e « os dedos representam os cinco degraus pelos quais o homem progride ».(10) Se, portanto, a infância e a juventude são o período onde o ser humano está a formar-se, vive projectado para o futuro e, tomando consciência das próprias potencialidades, forja projectos para a idade adulta, a velhice também possui os seus bens, porque — como observa S. Jerónimo — atenuando o ímpeto das paixões, ela « aumenta a sabedoria, dá conselhos mais amadurecidos ».(11) Em certo sentido, é a época privilegiada daquela sabedoria que, em geral, é fruto da experiência, porque « o tempo é um grande mestre ».(12) Além disso, é bem conhecida a oração do Salmista: « Ensinai-nos a contar os nossos dias, para que guiemos o coração na sabedoria » (Sal 90 [89], 12).

 

Os anciãos na Sagrada Escritura

6. «A juventude e a adolescência são passageiras», observa o Eclesiastes (11, 10). A Bíblia não deixa de chamar a atenção, por vezes com grande realismo, sobre a caducidade da vida e sobre o tempo que passa inexoravelmente: «Vaidade das vaidades, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade» (Ecle 1, 2): quem não conhece a severa advertência do antigo Sábio? Entende-mo-lo especialmente nós anciãos, ensinados pela experiência.

Apesar deste desencantado realismo, a Escritura conserva uma visão muito positiva do valor da vida. O homem permanece sempre criado à «imagem de Deus» (cf. Gn 1, 26), e cada idade possui a sua beleza e missão. Mais, a idade avançada encontra na palavra de Deus uma grande consideração, a tal ponto que a longevidade é vista como sinal da benevolência divina (cf. Gn 11, 10-32). Esta benevolência com Abraão, — homem, do qual é ressaltado o privilégio da ancianidade — assume o rosto de uma promessa: « Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da terra serão em ti abençoadas » (Gn 12, 2-3). Ao lado dele, aparece Sara, a mulher que vê-se envelhecer, mas que experimenta no seu corpo depauperado a potência de Deus, que supre a insuficiência humana.

Moisés já é ancião, quando Deus lhe confia a missão de fazer sair o povo eleito do Egipto. As grandes obras que ele realiza a favor de Israel por mandato do Senhor não ocupam os anos da juventude, mas os da velhice. Entre outros exemplos fornecidos por anciãos, queria citar a vida de Tobias, o qual, com humildade e coragem, procura observar a lei de Deus, ajudar os necessitados, suportar com paciência a cegueira até que o anjo de Deus não intervém definitivamente (cf. Tob 3, 16-17); e ainda a de Eleazar, cujo martírio testemunha a sua generosidade e fortaleza singulares (2 Mac 6, 18-31).

7. Também o Novo Testamento, cheio da luz de Cristo, descreve figuras eloquentes de anciãos. O Evangelho de S. Lucas abre com a apresentação de um casal « de idade avançada » (1, 7): Isabel e Zacarias, pais de João Baptista. Sobre eles desce a misericórdia do Senhor (cf. Lc 1,5-25.39-79): ao velho Zacarias é anunciado o nascimento de um filho. Ele mesmo o sublinha: « Como se há-de verificar isso, se estou velho e minha mulher avançada em anos? » (Lc 1, 18). Durante a visita de Maria à anciã prima Isabel, esta, cheia do Espírito Santo, exclama: « Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre » (Lc 1, 42), e no nascimento de João Baptista, Zacarias entoa o hino do Benedictus. Trata-se, pois, de um admirável casal de anciãos, cheio de profundo espírito de oração.

No templo de Jerusalém Maria e José, que levaram Jesus para oferecê-lo ao Senhor, ou melhor, de conformidade com a Lei, para resgatá-lo como primogénito, encontram o velho Simeão, que há longo tempo esperava o Messias. Tomando entre seus braços o Menino, ele bendiz a Deus e irrompe no Nunc dimittis: «Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo partir em paz…» (Lc 2, 29).

Junto a ele encontramos Ana, viúva de oitenta e quatro anos, assídua frequentadora do Templo, que naquela ocasião tem a alegria de ver a Jesus. O Evangelista anota que ela « pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém » (Lc 2, 38).

Ancião é Nicodemos, estimado membro do Sinédrio. Ele vai ver Jesus de noite, para não dar nas vistas. A ele o divino Mestre revela ser o Filho de Deus, vindo para salvar o mundo (cf. Jo 3, 1-21). Encontraremos Nicodemos no momento da sepultura de Cristo, quando, levando uma mistura de mirra e aloés, vencerá o medo e se manifestará como discípulo do Crucificado (cf. Jo 19, 38-40). Como são reconfortantes estes testemunhos! Lembram-nos como, em todas as idades, o Senhor pede a cada um para fazer render os próprios talentos. O serviço ao Evangelho não é questão de idade!

E que dizer de Pedro, chamado a testemunhar a sua fé no martírio? Um dia, o Senhor disse-lhe: «Quando eras mais novo, tu mesmo te cingias e andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde tu não queres» (Jo 21, 18). São palavras que, como Sucessor de Pedro, me tocam intimamente e fazem-me sentir vigorosamente a necessidade de estender as mãos em direcção às de Jesus, em obediência ao seu mandato: «Segue-me» (Jo 21, 19).

8. O Salmo 92 [91], como a querer sintetizar os brilhantes testemunhos dos anciãos que encontramos na Bíblia, proclama: «O justo florescerá como a palmeira, erguer-se-á como os cedros do Líbano. (…) Na velhice darão frutos, conservarão a sua seiva e seu frescor, para anunciar quão é justo o Senhor» (13, 15-16). O apóstolo Paulo, fazendo-se eco do Salmista, escreve na carta a Tito: «Os anciãos devem ser sóbrios, graves, prudentes, firmes na fé, na caridade e na paciência. Do mesmo modo, as anciãs devem mostrar no seu exterior uma compostura santa (…); devem dar bons conselhos, a fim de ensinarem as jovens a amar os seus maridos e filhos» (2, 2-5).

A velhice, portanto, à luz do ensinamento e no léxico próprio da Bíblia, apresenta-se como « tempo favorável » para levar a bom termo a aventura humana, e faz parte do desígnio divino a respeito de cada homem como tempo no qual tudo converge, para que ele possa compreender melhor o sentido da vida e alcançar a « sabedoria do coração ». « A honra da velhice — observa o Livro da Sabedoria — não consiste numa longa vida, e não se mede pelo número de anos. Mas a inteligência é que faz os cabelos brancos, e a verdadeira velhice é uma vida imaculada » (4, 8-9). Ela constitui a etapa definitiva da maturidade humana e é expressão da bênção divina.

 

Guardiões de uma memória colectiva

9. No passado, nutria-se grande respeito pelos anciãos. A este respeito, escrevia o poeta latino Ovídio: «Grande era outrora o respeito pela cabeça encanecida». (13) Séculos antes, o poeta grego Focílides advertia: «Respeita os cabelos brancos: presta ao velho sábio aquelas mesmas homenagens que tributas a teu pai». (14)

E hoje? Se nos detivermos a analisar a situação actual, constatamos que em alguns povos a velhice é estimada e valorizada; em outros, pelo contrário, é-o muito menos devido a uma mentalidade que põe em primeiro lugar a utilidade imediata e a produtividade do homem. Por causa desta atitude, a assim chamada terceira ou quarta idade é frequentemente desprezada, e os mesmos anciãos são levados a perguntar-se se a sua vida ainda tem utilidade.

Chega-se até a propôr, sempre com maior insistência, a eutanásia, como solução para as situações difíceis. Infelizmente, para muitas pessoas, o conceito de eutanásia nestes anos perdeu aquele traço de horror, que suscita naturalmente nos espíritos sensíveis ao respeito pela vida. Sem dúvida, pode acontecer que, nos casos de graves enfermidades com sofrimentos insuportáveis, as pessoas marcadas pela provação sejam tentadas pelo desespero e os seus entes queridos, ou os que cuidam delas, possam sentir-se motivados por uma mal entendida compaixão a considerar razoável a solução da « morte suave ». A este respeito, ocorre lembrar que a lei moral permite renunciar ao « excesso terapêutico »,(15) solicitando apenas aqueles cuidados que fazem parte das normais exigências da assistência médica. Outra coisa, porém, é a eutanásia entendida como a provocação directa da morte! Apesar das intenções e das circunstâncias, ela permanece um acto intrinsecamente mau, uma violação da lei divina, uma ofensa à dignidade da pessoa humana. (16)

10. É urgente recuperar a justa perspectiva a propósito da vida no seu conjunto. E a justa perspectiva é a eternidade, da qual a vida é preparação significativa em cada uma das suas fases. A velhice também tem de cumprir o seu papel neste processo de progressiva maturação do ser humano a caminho da eternidade. Desta maturação só poderá beneficiar-se o mesmo grupo social, do qual faz parte o ancião.

Os anciãos ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experimentados e amadurecidos. Eles são guardiões da memória colectiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. Excluí-los é como rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, em nome de uma modernidade sem memória. Os anciãos, graças à sua experiência amadurecida, são capazes de propor aos jovens conselhos e ensinamentos preciosos.

Sob esta luz, os aspectos de fragilidade humana, ligados de modo mais visível com a velhice, tornam-se uma chamada à interdependência e à necessária solidariedade que ligam entre si as gerações, visto que cada pessoa está necessitada da outra e se enriquece dos dons e dos carismas de todos.

Soam significativas, a propósito, as considerações de um poeta, que me é querido, que assim escreve: « Não é eterno só o futuro, não só!… Sim, também o passado é a era da eternidade: o que já aconteceu, não voltará a aparecer de repente assim como era… Voltará como Ideia, não virá novamente como ele mesmo».(17)

 

«Honra teu pai e tua mãe»

11. Então porque não continuar a tributar ao ancião aquele respeito que as sadias tradições de muitas culturas em cada continente retêm um valor? Para os povos da área de influência bíblica, a referência foi, ao longo dos séculos, o mandamento do Decálogo: «Honra teu pai e tua mãe»; um dever, de resto, universalmente reconhecido. Da sua plena e coerente aplicação, não só surgiu o amor dos filhos pelos pais, mas foi também destacado o forte laço que existe entre as gerações. Onde o preceito é acolhido e fielmente observado, os anciãos sabem que não correm o perigo de ser considerados um peso inútil e incómodo.

Além disso, o mandamento ensina a tributar respeito aos que nos precederam e o bem que nos fizeram: « o pai e a mãe » indicam o passado, o laço entre uma geração e outra, a condição que torna possível a mesma existência de um povo.

Conforme a dupla redacção proposta pela Bíblia (cf. Ex 20, 2-17; Dt 5, 6-21), este mandato divino ocupa o primeiro lugar na segunda Tábua, que se refere aos deveres do ser humano para consigo mesmo e para com a sociedade. Além disso, é o único mandamento ligado a uma promessa: «Honra teu pai e tua mãe, para que os teus dias se prolonguem na terra que o Senhor, teu Deus, te dará» (Ex 20, 12; cf. Dt 5, 16).

12. «Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião» (Lv 19, 32). Honrar os anciãos exige a seu respeito um triplo dever: o acolhimento, a assistência, a valorização das suas qualidades. Em muitos ambientes isto acontece quase espontaneamente, como por antigo costume. Em outros, porém, especialmente nas nações mais desenvolvidas economicamente, impõe-se uma necessária inversão de tendência, para que os que avançam pelos anos possam envelhecer com dignidade, sem temor de ficarem reduzidos a não contar para mais nada. É preciso convencer-se de que é próprio de uma civilização plenamente humana respeitar e amar os anciãos, para que estes se sintam, apesar da diminuição das forças, parte viva da sociedade. Já dizia Cícero que « o peso da idade é mais leve para quem se sente respeitado e amado pelos jovens ».(18)

O espírito humano, por outro lado, mesmo ressentindo-se do envelhecimento do corpo, permanece de certa forma sempre jovem, se viver orientado para o eterno; e experimenta mais vivamente esta perene juventude, quando, ao testemunho interior da boa consciência, se une o afecto diligente e grato dos entes queridos. Então o homem, como escreve S. Gregório de Nazianzo, «não envelhecerá no espírito: aceitará a dissolução como o momento estabelecido para a necessária liberdade. Suavemente emigrará para o além onde ninguém é imaturo ou velho, mas todos são perfeitos na idade espiritual». (19)

Todos conhecemos exemplos eloquentes de anciãos com uma surpreendente juventude e força de espírito. A quem deles se aproxima, suas palavras servem de estímulo e o exemplo de conforto. Possa a sociedade valorizar plenamente os anciãos, que em algumas regiões do mundo — penso de modo particular na África — são estimados justamente como «bibliotecas vivas» de sabedoria, guardiões de um património inestimável de testemunhos humanos e espirituais. Se é verdade que, do ponto de vista físico, em geral necessitam de ajuda, é igualmente certo que, na sua idade avançada, podem oferecer apoio à caminhada dos jovens que se debruçam sobre o horizonte da existência para provar os rumos.

Enquanto falo aos anciãos, não posso deixar de dirigir-me também aos jovens para convidá-los a permanecerem ao seu lado. Exorto-vos, caros jovens, a fazê-lo com amor e generosidade. Os anciãos podem dar-vos muito mais de quanto possais imaginar. O Livro do Eclesiástico a propósito adverte: « Não desprezes os ensinamentos dos anciãos, porque eles o aprenderam dos seus pais » (8, 9); « Frequenta a companhia dos anciãos, se encontrares algum sábio faz-te amigo dele » (6, 34); porque « quão bela é a sabedoria » dos anciãos (25, 5).

13. A comunidade cristã pode receber muito da serena presença dos que têm muitos anos de idade. Penso, sobretudo, na evangelização: a sua eficácia não depende principalmente da eficiência operativa. Em quantas famílias os netinhos recebem dos avós os primeiros rudimentos da fé! Porém, existem muitos outros campos a que pode estender-se a benéfica contribuição dos anciãos. O Espírito actua como e onde quer, servindo-se frequentemente de meios humanos que aos olhos do mundo não têm muita importância. Quantos encontram compreensão e conforto em pessoas anciãs sós ou doentes, mas capazes de infundir coragem pelo conselho bondoso, a oração silenciosa, o testemunho do sofrimento acolhido com paciente abandono!

Justamente quando as energias vêm a faltar e se reduz a sua capacidade de movimento, estes nossos irmãos e irmãs tornam-se mais preciosos no desígnio misterioso da Providência.

Também sob este ponto de vista, para além de uma clara exigência psicológica do ancião, o lugar mais natural para viver a condição de ancianidade continua a ser aquele ambiente onde ele é « de casa », entre parentes, conhecidos e amigos, e onde pode prestar ainda algum serviço. Na medida que, com o aumento da vida média, cresce a faixa dos anciãos, será sempre mais urgente promover esta cultura de uma ancianidade acolhida e valorizada, não marginalizada. O ideal é que o ancião fique na família, com a garantia de ajudas sociais eficazes, relativamente às necessidades crescentes que supõem a idade ou a doença. Existem, porém, situações em que as próprias circunstâncias aconselham ou exigem o ingresso em « Lares de terceira idade », a fim de que o ancião possa gozar da companhia de outras pessoas e usufruir de uma assistência especializada. Tais instituições são, portanto, louváveis e a experiência ensina que elas podem prestar um precioso serviço, na medida em que se inspiram em critérios não só de eficiência organizativa, mas também de afectuosa atenção. Neste sentido, tudo é mais fácil se a relação estabelecida com cada hóspede ancião, por parte dos familiares, amigos, comunidades paroquiais, for tal que os ajude a sentirem-se pessoas amadas e ainda úteis à sociedade. Como não lembrar aqui, com um grande sentimento de gratidão, as Congregações religiosas e os grupos de voluntariado, que se dedicam, com especial atenção, precisamente, à assistência dos anciãos, sobretudo dos mais pobres, abandonados ou que passam dificuldades?

Caríssimos anciãos, que vos encontrais em situações precárias por motivos de saúde ou outros, eu vos acompanho com afecto. Quando Deus permite o nosso sofrimento por causa da enfermidade, da solidão ou por outras razões ligadas à idade avançada, dá-nos sempre a graça e a força para que nos unamos com mais amor ao sacrifício do seu Filho e participemos com mais intensidade no seu projecto salvífico. Podemos estar certos: Ele é Pai, um Pai rico de amor e de misericórdia!

De modo especial, penso em vós, viúvos e viúvas, que ficastes sós a percorrer o último trecho da estrada da vida; em vós, religiosos e religiosas anciãos, que durante longos anos servistes fielmente a causa do Reino dos céus; em vós, caríssimos irmãos no Sacerdócio e no Episcopado que, tendo alcançado o limite de idade, deixastes a directa responsabilidade do ministério pastoral. A Igreja necessita ainda de vós. Ela aprecia os serviços que ainda podeis prestar nos vários campos de apostolado, conta com o apoio da vossa assídua oração, espera o vosso experimentado conselho e enriquece-se com o testemunho evangélico por vós prestado dia após dia.

 

« Ensinar-me-eis o caminho da vida na Vossa presença a plenitude da alegria »(Sal 16 [15], 11)

14. É natural que, com o passar dos anos, se torne familiar o pensamento do «crepúsculo». Recorda-no-lo, além de outros motivos, o mesmo facto que a lista dos nossos parentes, amigos e conhecidos vai-se reduzindo: percebe-mo-lo em diversas circunstâncias, por exemplo quando nos encontramos em reuniões de família, nos encontros com os nossos amigos de infância, de escola, de universidade, de serviço militar, com os nossos companheiros de seminário… A fronteira entre a vida e a morte atravessa as nossas comunidades e aproxima-se de cada um de nós inexoravelmente. Se a vida é uma peregrinação em direcção à pátria celestial, a velhice é o tempo no qual se olha mais naturalmente para o limiar da eternidade.

E contudo a nós, anciãos, também custa resignar-nos com a perspectiva desta passagem. Esta, de facto, apresenta, na condição humana marcada pelo pecado, uma dimensão tenebrosa que necessariamente nos entristece e amedronta. Como poderia ser de outro modo? O homem foi criado para viver, enquanto que a morte — como a Sagrada Escritura nos explica desde as primeiras páginas (cf. Gn 2-3) — não estava no projecto original de Deus, mas apareceu após o pecado, fruto da « inveja do demónio » (Sab 2, 24). Compreende-se assim porque, diante desta realidade tenebrosa, o homem reaja e se revolte.

 É significativo a este respeito que o mesmo Jesus, «provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado» (Hb 4, 15), tenha sentido medo diante da morte: « Meu Pai, se é possível passe de mim este cálice » (Mt 26, 39). Como é possível esquecer as suas lágrimas diante do túmulo do amigo Lázaro, apesar de que ele estivesse para ressuscitá-lo? (cf. Jo 11, 35).

Por mais que a morte seja racionalmente compreensível do ponto de vista biológico, não é possível vivê-la com «naturalidade». Ela está em contraste com o instinto mais profundo do homem. O Concílio disse a este respeito: « É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre». (20) Não há dúvida que a dor permaneceria inconsolável, se a morte fosse a destruição total, o fim de tudo. Por isso, a morte obriga o homem a colocar-se precisamente interrogações radicais sobre o sentido da vida: o que há para além do muro sombrio da morte? Constitui ela o termo definitivo da vida ou existe algo que a ultrapassa?

15. Desde os tempos mais antigos até aos nossos dias, não faltam na cultura da humanidade respostas redutivas que limitam a vida aos dias que vivemos sobre esta terra. No próprio Antigo Testamento, algumas anotações do Livro do Eclesiastes fazem pensar na velhice como um edifício em demolição e na morte como na sua total e definitiva destruição (cf. 12, 1-7). Mas, precisamente por detrás destas respostas pessimistas, ganha maior relevo a perspectiva plena de esperança que brota do conjunto da Revelação, e especialmente do Evangelho: «Deus não é Deus de mortos, mas de vivos» (Lc 20, 38). Confirma-o o apóstolo Paulo ao dizer que o Deus que dá a vida aos mortos (cf. Rom 4, 17), dará a vida também aos nossos corpos mortais (cf. ibid. 8, 11). E Jesus afirma de Si próprio: «Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim nunca morrerá» (cf. Jo 11, 25-26).

Cristo, tendo ultrapassado as fronteiras da morte, revelou a vida que está para além deste limite naquele «território» inexplorado pelo homem que é a eternidade. Ele é a primeira Testemunha da vida imortal; n’Ele a esperança humana revela-se cheia de imortalidade. «Se a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade». (21) A estas palavras, que a Liturgia oferece aos crentes como consolação na hora da despedida de um ente querido, segue um anúncio de esperança: «Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna». (22) Em Cristo, a realidade dramática e desconcertante da morte é resgatada e transformada, até manifestar a face de uma «irmã» que nos conduz aos braços do Pai. (23)

16. Assim, a fé ilumina o mistério da morte e infunde serenidade à velhice, não mais considerada e vivida como espera passiva de um evento destruidor, mas como promissora aproximação à meta da plena maturidade. São anos que hão-de ser vividos com um sentido de abandono confiado nas mãos de Deus, Pai providente e misericordioso; um período a ser utilizado de modo criativo, para um aprofundamento da vida espiritual, com a intensificação da oração e do empenho de servir os irmãos na caridade.

Devem ser louvadas, portanto, todas aquelas iniciativas sociais que permitem aos anciãos quer continuar a cultivarem-se física, intelectual e socialmente, quer fazerem-se úteis, pondo à disposição dos demais o próprio tempo, as próprias capacidades e experiência. Deste modo, conserva-se e aumenta o gosto pela vida, dom fundamental de Deus. Por outro lado, tal apreço pela vida não contradiz aquele anseio de eternidade, que amadurece nos que experimentam um crescimento espiritual profundo, como bem o testemunha a vida dos Santos.

O Evangelho lembra-nos a este respeito as palavras do velho Simeão, que se declara preparado para morrer, a partir do momento em que pôde apertar entre seus braços o Messias esperado: «Agora, Senhor, podes deixar o Teu servo partir em paz, segundo a Tua palavra, porque os meus olhos viram a Salvação» (Lc 2, 29-30). O apóstolo Paulo sentia-se, de certa forma, em conflito entre o desejo de continuar a viver, para anunciar o Evangelho, e aqueloutro de «partir para estar com Cristo» (Fil 1, 23). S. Inácio de Antióquia, enquanto caminhava feliz para padecer o martírio, testemunhava sentir a voz do Espírito Santo na sua alma como «água» viva que brotava dentro dele, e lhe sussurrava o convite: «Vem para o Pai». (24) Os exemplos poderiam continuar. Estes não lançam qualquer sombra sobre o valor da vida terrena, que é bela, apesar dos limites e sofrimentos, devendo ser vivida até ao fim; lembram-nos, porém, que ela não é o valor último, de tal forma que o ocaso da vida, do ponto de vista cristão, assume os contornos de uma « passagem », de uma ponte lançada da vida à vida, entre a alegria frágil e insegura desta terra e o gozo total que o Senhor reserva aos seus servos fiéis: « Entra no gozo do Teu Senhor » (Mt 25, 21).

 

Um auspício de vida

17. Com este espírito, caros irmãos e irmãs anciãos, enquanto faço votos de viverdes serenamente os anos que o Senhor estabeleceu para cada um, quero manifestar-vos em toda a sua profundidade os sentimentos que me animam neste derradeiro período da minha vida, depois de mais de vinte anos de ministério na sede de Pedro, e já na imediata expectativa do terceiro milénio. Apesar das limitações devidas à idade, conservo o gosto pela vida. Agradeço ao Senhor. É bonito poder gastar-se até ao fim pela causa do Reino de Deus!

Ao mesmo tempo, sinto uma grande paz quando penso ao momento em que o Senhor me chamar: de vida em vida! Por isso, tenho frequentemente nos lábios, sem qualquer sentimento de tristeza, uma oração que o sacerdote recita após a Celebração eucarística: In hora mortis meae voca me, et iube me venire ad te – «na hora da minha morte, chamai-me. E mandai-me ir para Vós». É a oração da esperança cristã, que não priva em nada de alegria a hora presente, enquanto entrega o futuro à custódia da divina bondade.

18. «Iube me venire ad te!»: este é o anseio mais profundo do coração humano, mesmo em quem não está consciente disto.

O Senhor da vida, fazei-nos tomar plena consciência e saborear como um dom, rico de futuras promessas, cada período da nossa vida.

Fazei que acolhamos com amor a Vossa vontade, pondo-nos cada dia nas Vossas mãos misericordiosas.

E quando chegar o momento da «passagem» definitiva, concedei-nos de enfrentá-lo com espírito sereno, sem qualquer nostalgia daquilo que deixarmos. Ao encontrar-Vos, depois de longa procura, reencontraremos todo o valor autêntico experimentado neste mundo juntamente com todos os que nos precederam no sinal da fé e da esperança.

E Vós, Maria, Mãe da humanidade peregrina, rogai por nós « agora e na hora da nossa morte ». Conservai-nos sempre unidos a Jesus, Vosso dilecto Filho e nosso irmão, Senhor da vida e da glória.

 Amen.

 Vaticano, 1 de Outubro de 1999.


(1) S. JOÃO DAMASCENO, Exposição da fé ortodoxa, 2, 29.
(2) Cf. A dignidade do ancião e a sua missão na Igreja e no mundo, Cidade do Vaticano 1998.
(3) VIRGILIO, « Fugit inreparabile tempus »: Georgiche, III, 284.
(4) Liturgia da Vigília Pascal.
(5) S. IRENEU DE LIÃO, Adversus haereses, 4, 20, 4.
(6) Cf. JOÃO PAULO II, Carta encíclica Centesimus annus (1 de maio de 1991), 18.
(7) Cf. ibid., 23.
(8) S. JOÃO CRISÓSTOMO, Comentário à Carta aos Romanos, 9, 2.
(9) Cf. Cato maior seu De senectute, 19, 70.
(10) Em « Tudo é vaidade e aflição de espírito », 5-6.
(11) « Auget sapientiam, dat maturiora consilia »: Commentaria in Amos, 2, Prólogo.
(12) CORNEILLE, Sertorius, a. II, sc. 4, b. 717.
(13) « Magna fuit quondam capitis reverentia cani », Fasti, lib. V, v. 57.
(14) Sentenças, XLII.

13/09/2010

———————————————————————————————————

A presença de Maria na história.

No Coração de Maria, encontram-se os doentes e os que sofrem e entrando na sua escola aprendemos a depender de Deus. A espiritualidade mariana é o sentido de dependência de Deus, do qual a Europa precisa aprender. Se observarmos os sistemas políticos, económicos e sociais e olharmos para a questão dos direitos humanos constatamos quão importante é esta dependência de Deus, sem a qual tudo se derruba, tudo se desmorona.

Assim a presença de Maria, não é somente importante, mas indispensável para a nossa espiritualidade e para a nossa boa coexistência social pacífica.[1]


[1] Cf. MIGLIORE, CELESTINO (Núncio apostólico na Polónia); Espiritualidade Mariana, questão central da Europa, http://www.zenit.org/article-26023?l=portuguese,

14/09/2010

———————————————————————————————————

Actual modelo de desenvolvimento necessita revisão!

 O atual modelo de desenvolvimento, político, económico, comportamentamental, pessoal e social, tem de ser revisto, porque é injusto, indecente, desigual, desproporcionado e agrava a pobreza e a exclusão social. Também é necessário contrariar a tendência cultural do individualismo pocessivo e da satisfação exacerbada.

Só poderemos traçar caminhos de futuro se nos detivermos a pensar em modelos humanistas.

Não são as pessoas que estão ao serviço da economia, mas a economia ao serviço das pessoas e dos povos, ao serviço do bem comum sem deixar de lado os vulneráveis.

Teremos de ser os primeiros praticantes de um modelo nascido da lógica do dom e marcado pela verdade, fazendo da caridade uma dimensão da nossa missão: anunciar o Reino e oferecer a graça que salva todos os que querem acolhê-la.

Não adiantam medidas legislativas para impor os valores, se não recuperarmos dimensão religiosa e não vencemos a crise de fé. Não se vence a fé com políticos de centro direita, mas com os princípios morais inscritos no coração das pessoas.

Só encarregando-nos da realidade com infinita paixão, com criatividade e com esperança, centrados, inspirados e apoiados em Deus, como fundamento e sentido último dos nossos passos[1], podemos “deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos”[2].


[1] Cf. AZEVEDO, D. CARLOS; XXVI Semana da Pastoral Social, Dar-se de verdade, para um desenvolvimento solidário, Fátima, http://www.zenit.org/article-26019?l=portuguese,

 [2] POWELL, ROBERT BADEN, Escutismo para Rapazes, Ed. CNE, Lisboa

14/09/2010

———————————————————————————————————

Respeito pela vida em todas as idades

È necessário respeitar a vida humana “independentemente da idade ou das circunstâncias”.

“A vida é um dom único, em cada fase, desde a concepção à morte natural, que só Deus pode dar e tirar”.

Numa sociedade em que se verifica uma longevidade crescente, “é importante reconhecer a presença de um número cada vez maior de idosos como uma bênção”.

“Deus deseja um respeito adequado pela dignidade e valor, a saúde e o bem-estar dos idosos”.

É de considerar o exemplo de João Paulo II, que “sofreu muito publicamente nos seus últimos anos de vida”.

“Estes tempos podem estar entre os anos mais frutuosos, espiritualmente, das nossas vidas”.[1]


[1] BENTO XVI, Respeitar a vida humana, Londres in Ecclesia.pt

18/09/2010

———————————————————————————————————

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: